© 2017 Fábio Magalhães.

De quem é esse corpo?

Celeste Wanner

No alvorecer do século XXI, vislumbramos um desejo por parte dos artistas em busca de suportes sensíveis para representar uma das mais avassaladoras das obsessões: o corpo! Meu corpo, o do outro, o corpo imaginado e desejado, o corpo consumido e o corpo que consome. Sensações, imaginação e ação constituindo e definindo o sujeito nas suas mais extensas e intensas relações com o mundo, processo contínuo de elaboração do que antes era a verdade do corpus, hoje, é a sua desconstrução.

O artista é levado pelo impulso de transformar a memória do corpo em práticas visuais das mais plurais, em associações e relações – temporais e espaciais –,com a sua própria identidade, buscando refletir sobre seus limites: angústia, dor, solidão, vida, morte, permissão e transformação.

O trabalho de Fábio Magalhães constrói-se através de um processo que envolve o seu próprio corpo, fotografado em performances silenciosas, até chegar à pintura. Trata-se de um trabalho cíclico, que envolve etapas bem definidas por ele – performance, fotografia e pintura –, mas que nem sempre trilham o mesmo caminho. São cruzamentos perseguidos pelo artista, para poder entender e se fazer entendido, sentir e ser sentido, em espaços e tempos, aqui e além, frente à fragilidade do estar-no-mundo. Assim, no espaço pictórico, Fábio Magalhães imprime cargas subjetivas e simbólicas, buscando refletir sua condição enquanto ser… “Embora minha obra tenha esse caráter intimista, na teatralidade de uma realidade particular, na minha atuação, minha narrativa é aberta… ela toca o senso comum: são sentimentos, momentos e emoções humanas de qualquer pessoa…

Se tudo isso cabe em uma só obra, de fato, a pintura de Fábio Magalhães nos instiga, pois propõe um jogo semiótico entre o real e a sua representação.

Se o corpo foi aberto a discussões das mais calorosas, no final do século XX, Foucault, um dos teóricos que mais contribuiu para novas concepções sobre o tema, traz à tona belas passagens da relação de Baudelaire com o seu próprio tempo. Um período caracterizado pela descontinuidade: uma pausa na tradição, um sentimento de novidade e de vertigem diante do momento que, no entanto, passa, como um ligeiro passatempo. Um pensamento que se instaura nesse próprio tempo, enquanto passagem, não indo além do instante presente, do efêmero, do fugaz e do contingente.

A modernidade baudelaireana é um exercício de atenção extrema ao que é real, àquilo que reside apenas dentro do homem, não sendo, assim, determinado pelo que lhe é externo. O ser se reconhece através de seu próprio corpo, de seu comportamento, sentimentos e paixões, buscando inventar-se a cada instante. Porém, aos olhos de Baudelaire, esse reconhecimento só poderá se produzir no outro, e somente naquele lugar diverso em que se constitui a Arte.

A contemporaneidade não nos oferece um novo corpo a ser habitado, mas um corpo que passa a ser visto e entendido como processo histórico, um corpo que não se resume a uma simples massa, pois é atemporal, indissociável do humano em eterna construção. A ocultação do corpo tem estreita relação com modelos impostos pelas culturas, sobretudo as ocidentais, que privilegiavam o silêncio e a confissão, atitudes bem caracterizadas por Foucault. Assim, falar do corpo era um sacrilégio, sobretudo quando se tratava de confessar o desejo, a sexualidade, e sentimentos não convencionais.

Através de sua anatomia, esse corpo lacrado, sagrado, ocultado, já era suficiente para determinar cada tipo de sujeito, e nada mais. Suas dimensões psicológica e erógena – ambas vinculadas ao prazer e ao desejo –, trazem uma nova carga semiótica, de recente descoberta nas pesquisas sobre o corpo.

Em tempos de desmantelamento dos códigos tradicionais, o corpo tenso acompanha pari passu as mais novas invenções tecnológicas da era digital, e –nessa corrida desenfreada – se vislumbra uma significativa mudança nas relações humanas: o corpo se torna denso. Um novo corpo, cerrado, compacto, mas extenso, ampliado. As mais diversas modificações acompanham esse corpo, em fobias, ansiedades, stress e comportamentos que evidenciam um corpo em câmbio, vinculado à cultura do consumo, do descartável, que faz do humano o corpo-objeto, o corpo-mercadoria.

Quiçá, através da arte, esse corpo possa ser revisto em seus mais diversos matizes, aqueles que tanto encantaram e continuam inspirando artistas por toda a história do homem e da arte, pois afinal, perguntamos: de quem é esse corpo? O corpo do artista, de um modelo ou o meu próprio corpo refletido nessa imagem?

Neste momento, todas as questões se colocam em suspenso, são puras possibilidades, pois o corpo continua sendo um ente complexo, onde as inflexões da história confluem para dar renovados sentidos à vida, mas à vida de um corpus.

Whose body is this?

Celeste Wanner

In the beginning of the twentieth century, artists showed a desire for sensitive supports in order to represent one of the most overwhelming obsessions: the body! My body, the other´s body, the imagined and desired body, the consumed body and the body that consumes. Sensations, imagination and action constituting and defining the human being in his/her most extense and intense relations with the world, a continuous process of elaboration of what used to be the truth of corpus, today is its demolishion. The artist is taken by the impulse of transforming the body memory in visual practices of most kinds, in associations and relations – time and space – with his/her own identity trying to reflect upon his/her limits: anguish, pain, loneliness, life, death, permission and transformation. Fábio Magalhães´s work is done through a process that involves his own body, photographed in silent performances, until he gets to painting. It is a cyclical work, which involves very well defined phases done by him – performance, photography and painting – but that not always take the same path. They are intersections pursued by the artist, for him to be able to understand and to be understood, to feel and to be felt, in spaces and times, here and beyond, facing the fragility of being-in-the-world. Hence, in the pictorial space, Fábio Magalhães poses subjective and symbolic feelings, in order to reflect his condition as a being… “Although my work has this intimate characteristic, in a theatrical scene of a particular reality, in my practice, my narrative is open…it tackles the common sense: they are feelings, moments and human emotions of any person…” If all that fits in only one art piece, in fact, the painting of Fábio Magalhães provokes us, because it proposes a semiotic game between what is real and its representation. If the body was opened to very hot discussions, at the end of the twentieth century, Foucault, one of the theoreticians who most contributed to new conceptions about the theme, raises great passages of the relationship between Baudelaire and his own time. A period characterized by discontinuity: a break in tradition, a feeling of novelty and dizziness in front of the moment that, however, passes, as a quick pastime. A thought that sets up in this very time, as a passage, not going any further than the present instant, the ephemeral, rapid, and the contingent. The baudelairean modernity is an exercise of extreme attention to what is real, to what resides only inside human nature, not being, thus, determined by what is external. The being recognizes himself through his own body, his own behavior, feelings and passions, searching to invent himself every moment. However, to Baudelaire´s eyes, this acknowledgement will only reproduce in the other, and only in that other place where Art happens. Contemporary reality does not offer to us a new body to be housed, but a body that starts being seen and understood as a historical process, a body that does not resume itself to a simple mass, because it is free from time, inseparable from human under endless construction. Hiding the body has a close relation with models imposed by cultures, especially western ones, which favor silence and confession, attitudes well characterized by Foucault. Thus, speaking of the body used to be a sin, mainly when they spoke about confessing desire, sexuality, and not so conventional feelings. Through its anatomy, this sealed body, sacred, hidden, was already enough to determine each kind of being, and nothing else. Its psychological and erogenous dimensions – both connected to pleasure and desire – bring a new semiotic amount, of recent discovery in researches about the body. In times of demolish of traditional codes, the tense body follows pari passu the newest technological inventions of the digital era, and – in this wild race – it is possible to see a meaningful change in human relations: the body becomes dense. A new body, thick, compact, but extensive, enlarged. Lots of modifications follow this body, in phobias, anxieties, stress and behaviors that turn evident a body in change, attached to the culture of consumerism, disposable things, that turns humans into body-object, body-good. Maybe, through art, this body may be re-seen in its most diverse colors, those which so much enchanted and continue inspiring artists throughout the history mankind and art, because after all, we ask: Whose body is this? The body of the artist, of a model or my own body reflected on this image? At this moment, all questions are put unanswered, these are only possibilities, because the body keeps being a complex thing, where the inflections of history merge to create new meanings to life, but to the life of a corpus.

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